Tem um dinheiro no seu extrato que parece seu e não é. É o imposto da venda que você já recebeu e ainda não recolheu. Ele fica ali 30, 60, às vezes 90 dias — e, nesse intervalo, paga fornecedor, folha e aluguel. É o float tributário. Quando o split payment estiver operando, esse dinheiro deixa de passar pelo seu caixa.
Este artigo é sobre uma conta só: quantos dias de caixa você perde quando isso acontecer. Para o quadro completo — o que é o split payment, o cronograma real e o que a lei diz —, leia o artigo pilar: O imposto vai sair da sua venda em tempo real.
O float tributário, em uma frase
Entre a venda e o recolhimento existe um intervalo. Nele, o valor do tributo está na sua conta bancária, misturado com o resto. Não é lucro nem capital seu: é imposto de passagem. Só que, no extrato, dinheiro é dinheiro — e boa parte da PME opera em cima desse colchão sem nunca ter dado nome a ele.
No split payment, o sistema separa a fatia do imposto no instante da liquidação financeira do pagamento e a manda direto para o governo. O colchão deixa de existir. Você não passa a pagar mais imposto — você passa a pagar antes.
A conta, passo a passo (com números de exemplo)
Os números abaixo são ilustrativos. Eles existem para você ver a mecânica e refazer a conta com os seus — não são uma estimativa da sua empresa nem uma projeção de mercado.
- Hipótese — faturamento. A empresa fatura R$ 200.000 por mês.
- Hipótese — imposto de passagem. Suponha uma alíquota efetiva de 10% sobre o faturamento, já descontados os créditos. São R$ 20.000 por mês de imposto que entra no caixa e depois sai.
- Hipótese — prazo do float. Entre receber a venda e recolher o tributo passam, em média, 45 dias.
- O colchão. R$ 20.000 × (45 ÷ 30) = R$ 30.000. É o valor que fica permanentemente parado no seu caixa: todo mês entra um imposto novo enquanto o do mês anterior ainda não saiu.
- Hipótese — quanto a empresa gasta. R$ 180.000 por mês de custos e despesas, ou R$ 6.000 por dia.
- O resultado. R$ 30.000 ÷ R$ 6.000 = 5 dias de caixa. Cinco dias de operação que o colchão bancava e que, quando o float acabar, você vai precisar ter de outro jeito.
Agora troque os números pelos seus. A fórmula é esta:
Colchão = imposto de passagem do mês × (dias de float ÷ 30) · Dias de caixa perdidos = colchão ÷ saída de caixa por dia
A sensibilidade importa mais do que o número final. No mesmo exemplo, se o prazo do float for de 30 dias, o colchão cai para R$ 20.000 — cerca de 3,3 dias de caixa. Se for de 60 dias, sobe para R$ 40.000 — cerca de 6,7 dias. Quanto mais longo o prazo de recolhimento e quanto mais apertada a operação, maior o tombo.
Você não vai pagar mais imposto por causa do split payment. Você vai parar de ter o imposto no caixa. E a conta que importa não é em reais — é em dias.
Por que a métrica é "dias de caixa", e não reais
R$ 30.000 não quer dizer nada sozinho. Para uma empresa que gasta R$ 6.000 por dia, são cinco dias de vida. Para uma que gasta R$ 30.000 por dia, é um dia. O valor absoluto assusta ou tranquiliza pelo motivo errado.
Dias de caixa responde à única pergunta que interessa quando o dinheiro aperta: quanto tempo eu aguento? É a régua para dimensionar a reserva, para negociar prazo e para saber se dá para continuar antecipando recebíveis do jeito que você antecipa hoje.
O que essa conta não diz (e é importante)
- Não é imposto novo. O total que você entrega ao governo não muda por causa do split payment. Muda o momento. O que dói é o descasamento, não a carga.
- O tombo é de uma vez, não todo mês. Você perde o colchão uma vez — no ciclo em que o split passar a valer para as suas operações. Depois, o caixa volta a girar, só que num patamar mais baixo.
- A entrada é gradual. Em 2027, o split payment começa opcional e restrito a operações entre empresas (B2B), faseado por meio de pagamento. O impacto não chega inteiro de uma vez — e essa folga é exatamente o tempo que você tem para se preparar.
- A alíquota efetiva é sua, não do noticiário. Ela depende dos seus créditos, do seu regime e do seu setor — use a que o seu contador calcular. E não use os 26,5% que circulam por aí como se fossem carga efetiva: são a alíquota de referência estimada, outra coisa.
O que fazer antes de o colchão sumir
Monte a reserva enquanto o float ainda existe
O colchão que vai desaparecer é, hoje, dinheiro na sua conta. A forma mais barata de sobreviver ao fim dele é ir transformando esse valor em reserva, mês a mês, em vez de descobrir o buraco quando ele aparecer. Reserva construída com sobra é de graça; construída com crédito emergencial, custa juro.
Renegocie prazo com fornecedor antes de precisar
Cada dia a mais no prazo de pagamento ao fornecedor devolve, na prática, dias de caixa. É a alavanca mais rápida e a única que não cobra juros. E negociar com folga, hoje, é uma conversa diferente de negociar sob pressão, depois — o seu poder de barganha muda.
Olhe a antecipação de recebíveis com outros olhos
Quem vive de antecipar recebíveis já paga para ter o dinheiro antes. Se o colchão do imposto some, a tentação é antecipar mais — e antecipação tem custo. Vale rodar a conta antes: quanto do que você antecipa hoje era, na verdade, imposto de passagem?
E há um detalhe da mecânica que muda a sua curva de recebimento: no split payment, a segregação do imposto é proporcional em cada parcela. Não sai tudo na primeira nem tudo na última — sai um pouco de cada uma. Se você vende parcelado, o líquido de cada parcela muda.
Faça a sua conta esta semana
- Pegue o faturamento de um mês normal — nem o melhor, nem o pior.
- Peça ao seu contador a sua alíquota efetiva (débitos menos créditos), não a de referência do noticiário.
- Descubra o prazo médio real entre receber a venda e recolher o tributo. É esse o tamanho do seu float.
- Calcule o colchão: imposto do mês × (dias de float ÷ 30).
- Divida pela sua saída de caixa por dia. O número que sair é quantos dias de caixa você precisa repor.
- Escreva esse número num lugar visível. Ele é a sua meta de reserva até o split payment chegar às suas operações.
Como o Otz.ai entra nisso
O Otz.ai não emite nota nem substitui o seu contador — a alíquota efetiva quem calcula é ele. O que o Otz faz é a parte que quase ninguém faz: junta o seu dado financeiro num lugar só e mostra quanto entra de fato, quanto sobra depois dos custos variáveis e quanto tempo o seu dinheiro dura. Dias de caixa é exatamente a leitura que o fim do float vai cobrar de você — e é o tipo de número que só aparece quando os dados estão juntos.
E a gente sabe que a maior parte da PME não tem esse dado organizado. Por isso o Otz começa pelo mínimo: você informa a receita e as despesas do mês — digitando, se for o caso — e já vê o resultado. Cada número mostra em que dado ele se apoia e o que falta para ficar mais preciso. Sem número inventado.
Fontes: LC 214/2025 (Planalto) · LC 227/2026 (Planalto) · Adiamento do split payment para 2027 (InfoMoney) · Split opcional e B2B em 2027 (Contábeis) · Nota técnica das alíquotas de referência (Ministério da Fazenda)
Os números da simulação são ilustrativos e servem só para demonstrar a mecânica do cálculo — refaça a conta com os dados da sua empresa. Conteúdo informativo — não é consultoria tributária. As regras estão em transição e podem mudar conforme os atos conjuntos da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS. Consulte o seu contador antes de decidir. Última revisão: 14 de julho de 2026.